Presidente da Anatel renuncia: “o fim lamentável de uma gestão desastrosa”, diz Lamachia

Brasília – O presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), João Rezende, entregou na tarde desta quarta-feira (10) ao ministro Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações) sua carta de renúncia. Ele, que deveria permanecer no cargo até dezembro, deixará o posto no dia 29 de agosto. A renúncia é o fim melancólico de um mandato marcado por uma gestão que defendeu os interesses das empresas que atuam no setor em claro detrimento dos interesses dos consumidores.

Antes mesmo da decisão de Rezende renunciar, em junho, a OAB já havia formalizado um pedido de afastamento do presidente da Anatel encaminhado para o presidente interino da República Michel Temer e para o ministro Kassab. O presidente nacional da Ordem, Claudio Lamachia, disse esperar que a saída de Rezende signifique uma virada na forma como a Anatel se relaciona com as empresas e com o cidadão brasileiro. “Espero que o próximo presidente da Anatel seja uma pessoa comprometida com os interesses dos cidadãos e não restrinja a atuação da agência reguladora à defesa dos interesses das empresas”, disse Lamachia.

O gesto de Rezende se dá em meio a um período notadamente marcado por críticas numa onda capitaneada pela OAB. A Ordem adotou postura crítica, mas acima de tudo combativa, à campanha conduzida por Rezende no sentido de estabelecer a chamada franquia de internet, acabando com o modelo atual em que os usuários pagam valores fixos e usam a vontade a conexão. Rezende chegou a afirmar que esse modelo de negócios estava fadado ao fim.

“É o fim lamentável de uma gestão desastrosa para o consumidor brasileiro, que viu na agência que deveria ser sua mais dedicada defensora uma representante institucional do grupo de empresas que atua no setor. É um desvio de finalidade claro e uma postura inaceitável de quem deveria zelar pelo interesse coletivo, mas escolheu defender tão somente um grupo de companhias que visam lucro antes de mais nada. Sob a gestão de Rezende, a Anatel só fez se curva às telefônicas, atuando repetidamente como sindicato das mesmas”, declarou o presidente nacional da OAB, Claudio Lamachia.

Ao longo dos últimos meses, o presidente da Anatel se desdobrou para encontrar argumentos que justificassem a adoção do modelo de franquia de internet, no qual os usuários pagam por um limite pré-acordado de uso da conexão e, se quiserem continuar a usar, devem pagar mais. Um modelo amplamente defendido pelas empresas de telecomunicações que atuam no mercado. “A Anatel, que deveria regular o serviço de telecomunicações no Brasil em benefício da sociedade, tem sido leniente e omissa”, acrescentou Lamachia.

“O amplo acesso à internet é hoje condição fundamental para a efetivação da liberdade de expressão e de informação. A Anatel tem atuado, nos últimos tempos, de forma contraria às necessidades de uma sociedade moderna, tem atuado contra os consumidores. Por esse motivo, a OAB pediu o afastamento do presidente que agora renuncia ao comando da agência. Espero que isso mude. Do contrário, a OAB está pronta a defender, na Justiça, os interesses da sociedade e da democracia”, declarou Lamachia.

Para defender suas ideias, Rezende assumiu uma postura intransigente em que se recusava ao diálogo, fugia dos argumentos e buscava desqualificar qualquer um que questionasse a decisão da Anatel em transformar o modelo dos sonhos das empresas no padrão para a venda de pacotes de acesso à internet no Brasil. Encontrou a partir de então na Ordem seu principal antagonista e no presidente Lamachia seu mais ferrenho crítico e combatente.

“A limitação da internet fixa é inconstitucional e representa a violação de duas leis federais: o Código de Defesa do Consumidor e o Marco Civil da Internet. Para a sociedade, a imagem da Anatel é a de um sindicato representativo das empresas de telefonia e não a de um órgão de controle da qualidade dos serviços e de defesa do consumidor”, disse Lamachia.

Caravana de Prerrogativas chega a Maringá (PR) e Lamachia conclama união da advocacia

Maringá (PR) e Brasília (DF) – Na manhã desta quarta-feira (10), em Maringá (PR), na segunda etapa da Caravana Nacional das Prerrogativas, o presidente nacional da OAB, Claudio Lamachia, conclamou que a advocacia precisa estar unida no delicado momento que o país vive. Ele chamou, ainda, todos os advogados a participar do debate nacional. 

“A história da advocacia e sobretudo da OAB se confunde com a história do país. Nossa entidade não pode se calar jamais. Dizem que o Brasil vive uma grave crise econômica e política. Pois eu digo: a grande crise é ética e moral. Então eu conclamo a advocacia a lutar por eleições limpas e escolhas certas, conscientizando a família, os amigos e os colegas de profissão sobre a importância da escolha correta”, convocou.

Para Lamachia, cada brasileiro é diretamente responsável pelas escolhas políticas que faz e, portanto, pelas consequências dessas escolhas. Se em cada um formos todos e em todos formos um, alcançaremos dias melhores para as próximas gerações”, incentivou o presidente nacional da Ordem.

Também participaram do evento presidente da Comissão Nacional da OAB de Defesa de Prerrogativas e Valorização da Advocacia, Jarbas Vasconcelos, juntamente com o vice Cássio Telles, além de Charles Dias, procurador nacional de Defesa das Prerrogativas. Eles acompanharão a Caravana.

Na ocasião, Vasconcelos afirmou que não há violação “pequena” de prerrogativas. “Todas as violações têm de receber resposta imediata do sistema OAB. Nunca fomos tão agredidos em nossa profissão, mas também nunca se viu uma OAB tão rápida nas respostas aos advogados violados em suas prerrogativas”, lembrou.

Já Charles Dias destacou que a advocacia vive momentos difíceis. “Nunca o artigo 133 da Constituição Federal, que diz que o advogado é indispensável à administração da justiça e inviolável em suas manifestações, foi tão esquecido. Não queremos uma advocacia de joelhos, perante os demais integrantes do tripé judiciário, porque isso é contra o sistema republicano e democrático. Queremos todos os agentes trabalhando com respeito, em busca do mesmo objetivo, a pacificação social e o cumprimento da Constituição”, defendeu.

Cássio Telles, por sua vez, entende que o fato de a Caravana começar pelo Paraná tem enorme simbolismo. “Vivemos um momento em que se tenta reduzir a atuação dos advogados com restrições variadas ao exercício profissional, como gravações de conversas entre advogados e clientes, retenção de anotações, busca indiscriminada nos escritórios e a desvalorização generalizada da profissão. O enfraquecimento da advocacia significa a vulnerabilidade da cidadania”, ressaltou.

No início da tarde desta quarta-feira (10), o grupo visitará a Penitenciária Federal de Catanduvas e em seguida, às 17h, debaterá sobre as prerrogativas na subseção de Cascavel. Amanhã, no dia do advogado, a Caravana estará na sede da OAB Paraná, em Curitiba, a partir das 9h.

Com informações da OAB Paraná e da Subseção da OAB Maringá

Para 71,4% dos congressistas, exercício irregular da advocacia deve ser criminalizado

Brasília – A atuação profissional dos advogados, cada dia mais ampla e
complexa, encontra respaldo da maioria da Câmara dos Deputados, segundo
pesquisa inédita realizada pelo Jota e divulgada em primeira mão para o público
da Ordem dos Advogados do Brasil. 

Levantamento realizado com deputados federais revela que
71,4% dos integrantes da atual Legislatura são favoráveis à criminalização do
exercício irregular da advocacia. O dado inédito foi levantado em pesquisa exclusiva conduzida pelo portal jurídico Jota, que publicará mais dados da
pesquisa neste dia 11, Dia do Advogado.

A maioria dos partidos apoia a tese proposta no Projeto de
Lei (PL) 7847/14, de autoria do deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP). A proposta de Sá prevê pena de detenção de seis meses a dois
anos para “advogados” sem OAB, passível de aumento na metade da pena, caso seja
comprovada vantagem econômica do agente. Na avaliação do presidente do Conselho
Federal da Ordem, Claudio Lamachia, quem se apresenta como advogado sem os
requisitos legais lesa os clientes e desrespeita o Poder Judiciário e a
democracia do País.

“Esse é um golpe que precisa ser criminalizado”, assinala o
presidente da Ordem. “Exercer a advocacia é algo muito sério e importante,
ser advogado significa trabalhar para que a Constituição não seja apenas uma
ideia bonita na teoria, mas para que seja aplicada na prática. Advogadas e
advogados atuam, no dia a dia, para que a democracia seja acessível aos
cidadãos brasileiros, buscando a efetivação de princípios como acesso à ampla
defesa e a ter um processo justo, de acordo com a lei.”

Lamachia explica que a OAB vem promovendo “um rigoroso
controle do serviço oferecido por meio do exame da Ordem”, de modo que a
sociedade possa se beneficiar de profissionais qualificados e confiáveis. Além
disso, a OAB também firmou convênio recentemente com o Ministério da Educação
com o objetivo de assegurar a qualidade dos cursos de Direito no País.

Empecilhos para aprovação

O texto proposto para criminalizar o exercício irregular da
profissão em tramitação na Câmara dos Deputados conta com alguns empecilhos
fortes a serem vencidos para ser transformado em lei, a despeito da maioria dos
parlamentares apoiarem a ideia.

O primeiro entrave é a tramitação da matéria. Proposto em
2014, o PL 7847 foi apensado (anexado para tramitação conjunta) a outro projeto
de lei (PL 7508/15), que busca punir autoridades e agentes públicos que
exacerbem suas funções e ajam com desrespeito aos advogados ou à advocacia,
impedindo ou prejudicando o exercício da profissão. Ao ter sido apensado, o PL
7508 tem preferência de votação sobre o PL 7847.

Não é só isso. O relator dos dois projetos apensados,
deputado Décio Lima (PT-SC), posiciona-se contra a maioria da bancada petista e
orientou a aprovação do PL 7508/15 e a rejeição do PL 7814/14 pela Comissão de
Constituição e Justiça.

“Quanto ao mérito do PL 4874, que criminaliza a conduta de
exercício irregular da advocacia, entendemos que o tratamento atualmente
dispensado à matéria deve ser mantido, não prosperando as alterações
sugeridas”, anotou.

Prazo factível

Há ainda a falta de interesse na discussão formal e
aprovação da proposta de Arnaldo Faria de Sá. O parecer foi apresentado à CCJ
em dezembro de 2015 e não há sinais de quando será votado.

De fato, há tempo de sobra: o projeto só vai ao arquivo por
omissão na sua deliberação quando acaba a Legislatura. A atual termina em 31 de
janeiro de 2019. Tempo existe, mas a atual trajetória encaminha o projeto para
o arquivo caso o parecer contrário do relator Décio Lima seja aprovado. A reversão desta trajetória é possível.

O projeto pode ser desapensado para tramitação isolada e
escolhido novo relator para a matéria. Em caso de manutenção da tramitação
conjunta, Décio Lima pode alterar seu parecer – algo que o petista fez duas
vezes. Há ainda a possibilidade dos deputados favoráveis à punição do exercício
irregular da advocacia rejeitarem o parecer Décio na CCJ ou no Plenário. E seja
qual for o conteúdo eventualmente aprovado pelo conjunto dos deputados, ainda
há a tramitação no Senado. Há um longo caminho a percorrer.