Artigo: Justiça em primeiro lugarData da Publicação: 29 de junho de 2017 às 09h27
Brasília – Confira o artigo de autoria do presidente
nacional da OAB, Claudio Lamachia, publicado nesta quinta-feira (29), no site
do Jornal O Estado de S. Paulo.
de um pedido de impeachment da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – suscitou
uma discussão lateral sobre a conveniência de questionar o chefe do governo em
meio a um quadro de recessão econômica. É uma tese sem lastro moral, de fundo
meramente utilitário, que, levado ao extremo, revoga o artigo 5.º da
Constituição, segundo o qual “todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza (…)”. Usou-se de idêntica argumentação quando do processo
contra a presidente Dilma Rousseff. Nada de novo, pois.
política, econômica e social – e é isso tudo –, é bem mais grave que isso: é
moral. A profusão de agentes públicos envolvidos em ilícitos, como jamais se
viu em qualquer tempo, distanciou a sociedade daqueles cuja missão
institucional é representá-la. Quando isso acontece, tem-se a desordem, o
descrédito das instituições leva à anomia e, por essa via, à desobediência
civil. Ao caos. O Brasil só escapará a essa tragédia, que as pessoas sensatas
têm o dever de evitar, se não descuidar do único antídoto capaz de debelá-la: a
justiça – sem messianismos de espécie alguma, respeitando o devido processo
legal, com ampla defesa e direito ao contraditório. Sem isso não haverá
justiça, mas justiçamento.
Descumprimento de Preceito Fundamental para que o Supremo Tribunal Federal, nos
termos da Constituição, ofereça interpretação do artigo 260 do Código de
Processo Penal, que trata de conduções coercitivas. E o fez não para dificultar
as investigações, mas para impedir os excessos que a deslegitimem.
indivíduo, constrangendo-o a um depoimento não previamente marcado, o que torna
inviáveis os mais mínimos arcabouços de defesa, por impedi-lo de obter a
orientação técnica. Trata-se, pois, de garantir a ampla defesa, que não permite
relativizar nenhum direito ou garantia fundamental, sob pena de se abrir uma
janela para o abuso e a arbitrariedade do Estado policial.
não pode ser tolerado sob nenhum pretexto. É o outro lado da mesma moeda: de um
lado, a impunidade em nome da estabilidade econômica e, do outro, a supressão
do rito judicial em nome da eficácia punitiva. Nas duas hipóteses se sabota a
justiça.
corporativo ao processo de saneamento moral do País não faz sentido, venha de
onde vier: Ministério Público, Poder Judiciário, Legislativo ou Executivo.
Moral não tem lado nem ideologia, tem princípios. Justiça não é de direita nem
de esquerda, simplesmente é, nos termos da lei.
do duelo dos partidos e das ideias, exatamente por ter a missão de garanti-los,
mediante regras claras e universais. Ou as regras valem para todos – ou não
valem para ninguém. Como num jogo de futebol, o juiz não joga: garante o jogo.
Se houver parcialidade, descumprimento das regras, o jogo é ilegítimo.
privilégios inaceitáveis. Deu cabimento à sátira com que Millôr Fernandes se
referia ao artigo 5.º da Constituição: “Todos são iguais perante a lei… mas
alguns são mais iguais”.
chega ao paroxismo –, está no cerne da atual crise. A população, padecendo os
rigores de uma recessão sem precedentes, com 14 milhões de desempregados,
projeta suas expectativas na justiça. Não quer pagar uma conta que não é sua –
nem tem a segurança de que, ainda que faça os sacrifícios que lhe pedem, a
dívida será mesmo honrada. Os precedentes dão-lhe razão.
ordem. Não importa, nesses termos, quais sejam os suspeitos, sobretudo se entre
eles está o presidente da República; quanto mais importantes os personagens,
mais urgentes e indispensáveis se tornam os esclarecimentos, sob pena, aí sim,
da ingovernabilidade.
política – e sanear esta sem enquadrar os que nela delinquiram – é não entender
nada de política e economia. Quem não perceber que um novo País está sendo
forjado, em bases morais mais sadias, já está fora da realidade – e perdeu a
sintonia com a História.
sociais, produziu uma sociedade em sinergia, conectada mesmo. E essa é uma
viagem sem volta. O povo não está apenas nas ruas, está em rede. Quer
transparência e não é mais agente passivo da História. É protagonista.
relação à vida pública brasileira. É a única entidade não estatal que tem o
dever estatutário – e seu estatuto é lei federal – de zelar pelo Estado
Democrático de Direito e pela boa aplicação das leis. Por isso se tornou
porta-voz da sociedade civil e desde sua fundação tem tido grande protagonismo
na cena política, sem, no entanto, tomar partido.
por meio de seu então presidente, Raymundo Faoro, quando, na década de 1980, o
regime militar quis negociar os termos da redemocratização. Desse processo
resultaram o fim da censura, o restabelecimento do habeas corpus, as eleições
diretas e, em suma, a assim chamada Nova República.
corrupção, esteve à frente dos processos de impeachment que afastaram Fernando
Collor e Dilma Rousseff – agora faz o mesmo com Michel Temer – e foi
protagonista novamente na defesa do habeas corpus quando da apresentação das
dez medidas de combate à corrupção. Pela diversidade dos partidos e dos perfis
ideológicos desses personagens, vê-se que não age facciosamente. O partido da
OAB é o Brasil e sua ideologia, a Constituição.





